sexta-feira, abril 08, 2016

De que serve a beleza



«E a beleza não serve de nada. Atrapalha. Provoca desastres nas famílias, intoxica-nos até ao desmaio e não poupa nada. Devia ser proibida. É um escândalo no meio do mundo. É a casa do espantoso medo que é perdê-la. Não escolhi ser quem sou, este vício de que sou escravo. O que mais importa ninguém escolhe. Já tentei ser tantos para escapar de mim, para me desviar desta vida que me deram. E depois vem a beleza. Surpreendente ao virar de uma esquina. Um desejo marcado no ponto de encontro do aeroporto onde ficaremos para sempre abraçados. Envolta em nevoeiro a tomar duche à minha frente. A irromper do nada. A primeira coisa que uma qualquer tirania sabe que tem a fazer é demolir a beleza. Com todo o direito, de todas as maneiras. A beleza semeia a desordem nas almas e nos corpos que anima. Alimenta-se de uma liberdade particularmente virulenta. É impertinente. Não conhece regras. Viva da vida e de mais nada.»



Sou o que quiseres... Mas quando eu quiser.

4 comentários:

  1. Sou muito suspeito no que respeita a Pedro Paixão...escritor que não escreve, descreve sim o que quase todos sentimos e temos medo de dizer ou sequer admitir sentir. Cada palavra traz consigo outras tantas que espreitam teimosas atrás uma das outras, sempre na rebeldia da descoberta da nossa nudez, rindo e nos violando. Por isto sou suspeito...sendo seu leitor!
    Obrigado pelo que trazes Pink

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    1. És tu e eu, graças a um professor meu e a uma conversa minha com Pedro Paixão fui apresentada na Livraria Ler Devagar (quando as instalações ainda eram na rua da Rosa - Bairro Alto) como nova escritora há cerca de 20 anos... O Pedro Paixão é um homem que nos despe!

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  2. Li muito do Pedro Paixão....e eu aqui nem preciso elogiar as letras portuguesas...nascido em fevereiro.... que mais poderia ser???
    "Já não se pode fumar em nenhum lado. O desamor é bem mais devastador, e no entanto não é proibido."
    A Rapariga Errada, Pedro Paixão, p.11

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Odeio as almas estreitas, sem bálsamo e sem veneno, feitas sem nada de bondade e sem nada de maldade. Nietzsche
Debita aqui algum bálsamo.