Absorve-me mas em várias fracções

segunda-feira, 25 de julho de 2011

O burro e a cenoura

Não tenho filhos e tremo só de pensar.
Os exemplos que vejo em volta não aconselham temeridades.
Hordas de amigos constituem as respectivas proles e, apesar da benesse, não levam vidas descansadas. Pelo contrário: estão invariavelmente mergulhados numa angústia e numa ansiedade de contornos particularmente patológicos. Percebo porquê. Há cem ou duzentos anos, a vida dependia do berço, da posição social e da fortuna familiar. Hoje, não.
A criança nasce, não numa família mas numa pista de atletismo, com as barreiras da praxe: jardim-escola aos três, natação aos quatro, lições de piano aos cinco, escola aos seis. E um exército de professores explicadores, educadores e psicólogos, como se a criança fosse um potro de competição. Eis a ideologia criminosa que se instalou definitivamente nas sociedades modernas: a vida não é para ser vivida mas construída com sucessos pessoais e profissionais, uns atrás dos outros, em progressão geométrica para o infinito. É preciso o emprego de sonho, a casa de sonho, o maridinho de sonho, os amigos de sonho, as férias de sonho, os restaurantes de sonho. Não admira que, até 2020, um terço da população mundial esteja a mamar forte no Prozac. É a velha história da cenoura e do burro: quanto mais temos, mais queremos. Quanto mais queremos, mais desesperamos. A meritocracia gera uma insatisfação insaciável que acabará por arrasar o mais leve traço de humanidade. Não deixa de ser uma lástima. Se as pessoas voltassem a ler os clássicos, sobretudo Montaigne, saberiam que o fim último da vida não é a excelência, mas sim a felicidade!

João Coutinho (jornalista)


EU, NÃO PAREÇO, EU SOU.

8 comentários:

  1. a ideia é não encontrar nada escrito?! O POST é abstracto... hehehehe

    é que eu não consigo ver o texto...devo ser a parte do "burro" e não da "cenoura"


    xoxo***

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  2. sabes, e quem te diz é alguém que está no meio disso tudo, as crianças precisam de brincar,de terra, ar livre, sujarem-se...serem crianças...se o fizerem, o mundo no futuro será melhor acredita!


    beijo

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  3. Amei, muito bem escrito! Fizeste bem em postar.

    Beijo

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  4. Muito bom post! Estava para o ler desde manhã, mas não conseguia aceder ao teu blog.

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  5. Adorei o texto.É bom alguém lembrar-nos que a vida não é uma corrida, não temos que ser os melhores, os mais fantásticos, temos é que ser ou pelo menos tentar ser e de acordo com os nossos critérios os mais felizes:)

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  6. Belo texto!
    Se deixassem as crianças brincar e expressarem-se naturalmente, as coisas surgiriam aos poucos.
    Mas eu não sou ninguém neste tema. Não concebo a ideia de ter filhos para já porque não os saberia educar, nem gerir a minha vida.


    Beijoooo

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  7. Pois eu todos os dias digo apenas á minha princesa brinca muito, e apenas lhe desejo que seja feliz.
    Bj

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Odeio as almas estreitas, sem bálsamo e sem veneno, feitas sem nada de bondade e sem nada de maldade.Nietzsche
Deixa aqui algum bálsamo.