terça-feira, março 29, 2011

Estás lixado(a)

A geração dos meus pais não foi uma geração à rasca.

Foi uma geração com capacidade para se desenrascar.
Numa terriola do Minho as condições de vida não eram as melhores.
Mas o meu pai António não ficou de braços cruzados à espera do Estado ou de quem quer que fosse para se desenrascar.Veio para Lisboa, aos 14 anos, onde um seu irmão, um pouco mais velho, o Artur, já se encontrava.Mais tarde veio o Joaquim, o irmão mais novo.Apenas sabendo tratar da terra e do pastoreio, perdidos na grande e desconhecida Lisboa, lançaram-se à vida. Porque recusaram ser uma geração à rasca fizeram uma coisa muito simples. Foram trabalhar.
Não havia condições para fazerem o que sabiam e gostavam.Não ficaram à espera.Foram taberneiros. Foram carvoeiros. Fizeram milhares de bolas de carvão e serviram milhares de copos de vinho ao balcão.
Foram simples empregados de tasca.Mas pouparam. E quando surgiu a oportunidade estabeleceram-se como comerciantes no ramo. Cada um à sua maneira foram-se desenrascando.Porque sempre assumiram as suas vidas pelas suas próprias mãos.Porque sempre acreditaram neles próprios.E nós, eu e os meus primos, nunca passámos por necessidades básicas.Nós, eu e os meus primos, sempre tivémos a possibilidade de acesso ao ensino e à formação como ferramentas para o futuro.Uns aproveitaram melhor, outros nem tanto, mas todos tiveram as condições que necessitaram.E é este o exemplo de vida que, ainda hoje, com 60 anos, me norteia e me conduz.Salvaguardadas as diferenças dos tempos mantenho este espírito.Não preciso das ajudas do Estado.Porque o meu pai e tios também não precisaram e desenrascaram-se. Não preciso das ajudas da família que também têm as suas próprias vidas. Não preciso das ajudas dos vizinhos e amigos. Porque o meu pai e tios também não precisaram e desenrascaram-se. Preciso de mim. Só de mim. E, por isso, não sou, nunca fui, de qualquer geração à rasca. Porque me desenrasco Porque sempre me desenrasquei. O mal desta auto-intitulada geração à rasca é a incapacidade que revelam. Habituados, mal habituados, a terem tudo de mão beijada. Habituados, mal habituados, a não precisarem de lutar por nada porque tudo lhes foi sendo oferecido. Habituados, mal habituados, a pensarem que lhes bastaria um canudo de um qualquer curso dito superior para terem garantida a eterna e fácil prosperidade. Sentem-se desiludidos. E a culpa desta desilusão é dos "papás" que os convenceram que a vida é um mar de rosas.Mas não é.É altura de aprenderem a ser humildes.É altura de fazerem opções. Podem ser "encanudados" de qualquer curso mas não encontram emprego "digno". Podem ser "encanudados" de qualquer curso mas não conseguem ganhar o dinheiro que possa sustentar, de imediato, a vida que os acostumaram a pensar ser facilmente conseguida. Experimentem dar tempo ao tempo, e entretanto, deitem a mão a qualquer coisa.
Mexam-se.
Trabalhem.
Ganhem dinheiro.
Na loja do Shopping.
Porque não ? Aaaahhh porque é Doutor...Doutor em loja de Shopping não dá status social. Pois não.Mas dá algum dinheiro. E logo chegará o tempo em que irão encontrar o tal e ambicionado emprego "digno". O tal que dá status. O meu pai e tios fizeram bolas de carvão e venderam copos de vinho. Eu, que sou Informático, System Engineer, em alturas de aperto, vendi bolos, calças de ganga, trabalhei em cafés, etc.
E garanto-vos que sou hoje muito melhor e mais reconhecido socialmente do que se sempre tivesse tido a papinha toda feita. Geração à rasca ?


Vão trabalhar que isso passa.
(autor desconhecido)

NÃO SOU SUPERIOR, SUPERO-ME!(e não comprem guerras comigo)

19 comentários:

  1. Mas que grande verdade! Já ouvi muita vez a conversa do "tirei um curso, não foi para servir cafés!"

    Realmente existe muita falta de humildade neste pais...

    Beijo!

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  2. Quando acabei o curso disse: só quero um trabalho, seja na área ou não, quero um trabalho.
    E mais fixo ou não tive-o. Mas também fui a luta.
    Se passei maus bocados passei.
    Mas nunca fui revoltada apesar de ter passado por um períudo de desemprego.
    Sempre vi as coisas pelo lado positivo.
    Que as coisas estão más estão, que não há oportunidades não ha.
    E tenho para mim que cada caso é um caso...
    E que também não falta aí pessoal que apesar de ter um diploma, pede um trabalho seja naquilo que for...
    Ha já muita gente que já nem procura na área em que se especializou.
    bjx

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  3. Aww não tens que agradecer. É um selo bem original :)

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  4. Brutal este texto. Concordo com cada palavrinha!!!!

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  5. Eu tenho dois diplomas; já fui bancária, RP, servi à mesa... Oh pá...

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  6. Petra, cncordo em absoluto. Beijo

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  7. Pink emotions: obrigada, vai parecendo...

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  8. Já falei sobre isso no meu cantinho e aquilo que te digo, e sou uma canudada, é que procuro emprego à seculos e não encontro... Porque tenho bom CV, habilitações a mais é o que me dizem!!!
    Se não fosse o negócio de família provavelmente seria mais uma à rasca e não era por falta de procurar!
    ***

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  9. Nada mais acertado claro... os jovens de hoje não são nada Geração à Rasca mas sim uns grandes enrascados, e porque querem. A vida não é fácil para ninguém e nada se consegue sem trabalho e, como aqui mesmo diz, humildade.

    Adorei, as always!

    Bjs doces na minha Pink

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  10. Palmas, nunca falaste tão bem.

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  11. Concordo!!
    Gostei bastante do que escreveste!
    Muitos não se querem sujeitar a trabalhos menos dignos porque têm a "papinha feita"...se passassem dificuldades até para as obras iam!

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  12. Faço da petra as minhas palavras.
    Eu ainda nem o curso acabei pq não tenho possibilidades sequer de o pagar, mas uma coisa tb é certa, sem 12º é tramado arranjar trabalho até dizer chega.
    Já trabalho desde os 16 anos e não é por isso que deixo de ser menos gente que esse pessoal com cursos pagos pelos papás e etc... A geração de agora sabe é muito. Querem boa vida e papo para o ar, mas trabalhar que o façam os outros!
    ****

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  13. Eu tive o curso pago, carros, fins de semana a casa... Tudo mas quando me atirei ao trabalho, foi a sério, e acho que todos passamos por problemas económicas mas tem que ver com a conjuntura e não com a preguiça...

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  14. Revejo tanto o meu pai no teu texto.
    Enche-me de orgulho e de motivação para tudo o que possa encontrar no meu caminho! :)

    Somos filhos de uma geração fantástica, e ainda nos queixamos!

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  15. sim, sim lá está. Hà excepçoes à regra. Apesar de teres tido a sorte de teres tudo pago, não tens problema algum em trabalhar. Existe gente com tudo pago e quando é para trabalhar, nem se mexem.. Sociedadezinha esta. pfff
    ****

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  16. Estet texto mostra que sim, basta sair à rua e ir à luta

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  17. Fantástico!
    Andava mesmo distraida. Não vinha aqui há uns bons dias, Pink.
    O que vale é que também é bom ler tudo de uma vez :)
    Beijokas

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Odeio as almas estreitas, sem bálsamo e sem veneno, feitas sem nada de bondade e sem nada de maldade. Nietzsche
Debita aqui algum bálsamo.