sexta-feira, junho 24, 2016

De José Saramago

As palavras são boas. As palavras são más. As palavras ofendem. As palavras pedem desculpas. As palavras queimam. As palavras acariciam. As palavras são dadas, trocadas, oferecidas, vendidas e inventadas. As palavras estão ausentes.
Algumas palavras sugam-nos, não nos largam... As palavras aconselham, sugerem, insinuam, ordenam, impõem, segregam, eliminam. São melífluas ou azedas. O mundo gira sobre palavras lubrificadas com óleo de paciência. Os cérebros estão cheios de palavras que vivem em boa paz com as suas contrárias e inimigas. Por isso as pessoas fazem o contrário do que pensam, julgando pensar o que fazem. Há muitas palavras. E há os discursos, que são palavras encostadas umas às outras, em equilíbrio instável graças a uma precária sintaxe, até ao prego final do disse ou tenho dito. Com discursos se comemora, se inaugura, se abrem e fecham sessões, se lançam cortinas de fumo ou dispõem bambinelas de veludo. São brindes, orações, palestras e conferências. Pelos discursos se transmitem louvores, agradecimentos, programas e fantasias. E depois as palavras dos discursos aparecem deitadas em papéis, são pintadas de tinta de impressão - e por essa via entram na imortalidade do verbo. E as palavras escorrem tão fluidas como o "precioso líquido". Escorrem interminavelmente, alagam o chão, sobem aos joelhos, chegam à cintura, aos ombros, ao pescoço. É o dilúvio universal, um coro desafinado que jorra de milhões de bocas. A terra segue o seu caminho envolta num clamor de loucos, aos gritos, aos uivos, envoltos também num murmúrio manso, represo e conciliador... E tudo isso atordoa as estrelas e perturba as comunicações, como as tempestades solares. Porque as palavras deixaram de comunicar. Cada palavra é dita para que se não ouça outra palavra. A palavra, mesmo quando não afirma, afirma-se. A palavra não responde nem pergunta: amassa. A palavra é a erva fresca e verde que cobre os dentes do pântano. A palavra é poeira nos olhos e olhos furados. A palavra não mostra. A palavra disfarça. Daí que seja urgente moldar as palavras para que a sementeira se mude em Seara. Daí que as palavras sejam instrumento de morte - ou de salvação. Daí que a palavra só valha o que valer o silêncio do ato. Há também o silêncio.
O silêncio, por definição, é o que não se ouve. O silêncio escuta, examina, observa, pesa e analisa. O silêncio é fecundo. O silêncio é a terra negra e fértil, o húmus do ser, a melodia calada sob a luz solar. Caem sobre ele as palavras. Todas as palavras. As palavras boas e as más. O trigo e o joio.
Mas só o trigo dá pão.



Sou o que quiseres... quando eu quiser.

8 comentários:

  1. Por vezes o silêncio é a melhor resposta... Beijinho

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  2. Simplesmente Lindo, o texto! Concordo com a Esmy. O silencio é a melhor resposta! Amei!

    Beijoos
    Anjinha Sexy

    Espero por aqui: Prazeres e Carinhos Sexuais

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  3. Nos meus 37 anos de vida, aprendi que podemos corrigir todos os erros, mas o mais difícil de consertar, são os erros que saem da nossa boca. As nossas palavras ficam para sempre, ecoam pelo nosso futuro e sempre serão lembradas!
    Uma das maiores lições que tive, foi com um professor, que sempre dizia para calar nos momentos de raiva e ódio:
    - Ficou com raiva, não fale! Se não conseguir, coloque um gole de água na boca e conte até 100!
    BJOS

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    1. Lena... dizer o que???
      Você esgotou o assunto!!!
      A palavra é uma seta que fere e não mais cura.A palavra tem a força de construir e destruir!!!
      Comentário nota mil para um post fantástico.
      As pessoas que estavam visitando o PDR deveriam ler esse post genial!!!

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  4. Vou responder a todas as pessoas: com o silêncio de umas palavras graves que me disseram no meio da rua, eu ganhei uma acção em tribunal.
    Beijos

    (Mas se a porra de uma anónima com nome de chocolate chama o meu marido de corno, o sangue ferve!)

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    1. É compreensível, certas horas precisamos descer do salto!

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    2. Minha amiga... o post é genial. Coisa de Saramago. Coisa de gênio!
      Certas pessoas deveriam ler esse post.
      Fantástico. A Lena colocou sua visão concludente do assunto...
      Um abraço por mais esse post genial que leio aqui.
      Ler é aprender....!!!!!

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  5. Só o trigo dá pão. Está tudo dito

    Feliz Sábado

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Odeio as almas estreitas, sem bálsamo e sem veneno, feitas sem nada de bondade e sem nada de maldade. Nietzsche
Debita aqui algum bálsamo.