A saga de dona Pureza Loyola, a mulher que partiu em busca
do filho e, no caminho, denunciou a existência do trabalho escravo moderno no
Brasil
Em sua caminhada solitária à procura do filho, Pureza passou
por fazendas, registrou maus tratos, gravou vozes de gente oprimida à base de
chicote e trouxe à tona as condições terríveis de trabalho a que pessoas
simples eram submetidas, em plenos anos 90.
A corajosa mulher enfrentou gente armada e políticos e mudou
para sempre a história do trabalho no Brasil. A Dona Pureza Loyola era viúva e
cuidava do filho trabalhando em uma olaria, em Bacabal, Maranhão. Em 1992, seu
querido rebento resolveu que iria buscar uma vida melhor em garimpos do Pará.
Ele desapareceu. Onde Pureza passava, oferecendo serviço de limpadeira e
cozinheira, ela encontrava pessoas escravizadas. Gente com falta de esperança
nos olhos de tanto sofrimento da labuta. Olhares e vocabulário simples, quase
todos não sabiam ler ou contar dinheiro. Eram homens e mulheres escravizados
dentro de fazendas, feudos modernos. Em um sistema em que a pessoa era agregada
na fazenda, mas não conseguia sair porque contraía dívidas na venda do local. A
caminhada de Pureza ocorreu entre 1993 e 1996. Ela passou pelos estados do
Maranhão e Pará e fez uma quantidade enorme de registros em fotos, áudios e até
vídeos. Encontrou pessoas que foram escravizadas 10, 15 até 20 vezes dentro de
fazendas. Quando levou a denúncia para o Estado, muitos políticos tentaram
tirar sua legitimidade, pois alguns deles eram donos das fazendas
escravizadoras. A coisa mudou com as denúncias de Pureza. O então presidente
FHC, aconselhado por Ruth Cardoso, abriu portaria e iniciou os grupos móveis do
Ministério Público do Trabalho que, junto com a polícia especializada e procuradores,
percorriam fazendas e libertavam pessoas. E nos primeiros anos foram mais de 50
mil indivíduos que viviam em condições indignas.
Além disso, tem seu nome colocado no hall da fama e honra
das mulheres que desafiaram sistemas e não quebraram apenas as suas correntes,
mas também às de seus semelhantes. O filho de Pureza voltou, viveu um inferno,
mas esteve novamente nos braços da mãe, que lhe deu liberdade e conseguiu,
através de muita coragem, garantir, que, ao menos o Estado, se comprometesse a
quebrar as correntes que, apesar da Lei Áurea, promulgada a mais de 100 anos
antes de dona Pureza peregrinar pelas fazendas de escravizados modernos,
continuava prendendo trabalhadores pobres, que se viam reféns da exploração
daqueles que se aproveitam da miséria para explorar o outro.
Texto Joel
Paviotti
Pink Poison(ver ©COPYRIGHT)