segunda-feira, setembro 19, 2016

Erasmo de Roterdão

O espírito do homem é feito de maneira que lhe agrada muito mais a mentira do que a verdade. Fazei a experiência: ide à igreja, quando aí estão a pregar. Se o pregador trata de assuntos sérios, o auditório dormita, boceja e enfada-se, mas se, de repente, o zurrador (perdão, o pregador), como aliás é frequente, começa a contar uma história de comadres, toda a gente desperta e presta a maior das atenções.
Como é fácil essa felicidade! Os conhecimentos mais fúteis, como a gramática por exemplo, adquirem-se à custa de grande esforço, enquanto a opinião se forma com grande facilidade, contribuindo tanto ou talvez mais para a felicidade. Se um homem come toucinho rançoso, de que outro nem o cheiro pode suportar, com o mesmo prazer com que comeria ambrósia, que tem isso a ver com a felicidade? Se, pelo contrário, o esturjão causa náuseas a outro, que temos nós com isso? Se uma mulher, horrivelmente feia, parece aos olhos do marido semelhante a Vénus, para o marido é o mesmo do que se ela fosse bela. Se o dono de um mau quadro, besuntado de cinábrio e açafrão, o contempla e admira, convencido de que está a ver uma obra de Apeles ou de Zêuxis, não será mais feliz do que aquele que comprou por elevado preço uma obra destes pintores e que olhará para ela talvez com menos prazer?
Erasmo de Roterdão, in "Elogio da Loucura"


SOU ÚNICA, o mundo está cheio de cópias..

5 comentários:

  1. Texto de uma autenticidade que ultrapassa os limites do tempo!!!!
    Os grandes escritores são assim... eternos!!!
    Impressionante como a humanidade não muda... e você redescobre esse trecho fantástico do Erasmo......coisa de quem lê muito!!!
    Beijos.....

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    1. O que ele descreve é pura sociologia...

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  2. Concordo a 100%.

    Luke Skywalker

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    1. Impossível não concordar, impossível não querer mudar...

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    2. Quem o feio ama, bonito lhe parece.
      Penso que uma das lições a retirar do texto, é que tudo é relativo. O bonito e o feio, está nos olhos de quem admira. :)

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Odeio as almas estreitas, sem bálsamo e sem veneno, feitas sem nada de bondade e sem nada de maldade. Nietzsche
Debita aqui algum bálsamo.