Absorve-me mas em várias fracções

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Duas vezes bastam


Só te vi duas vezes. Apanhaste-me desprevenido. Foram os teus olhos ou o teu sorriso. Da primeira vez não nos falámos. Vi-te só de pé. Olhavas para longe. Da segunda disseste-me que nada fazias, que nada pretendias fazer, que tudo seria inútil. Que gostarias de trazer um pouco de felicidade a alguém e não sabias como nem a quem. Continuámos a beber e depois convidaste-me para dançar por detrás de umas cortinas. O teu corpo era esguio e mexia-se para além da tua vontade, ao som da música que nos emociona sem que saibamos porquê. É tão bom não saber nada. Foi logo disso que gostei em ti, de nada saber de ti. Não pretendias ser quem quer que fosse. Qualquer ambição manchar-te-ia para sempre. Cada pessoa é um mundo que desconhecemos. É tão estranho conhecer. Aprendemos e depois desaprendemos. Cada um uma pequena multidão. Só te vi duas vezes e foi o bastante para agarrares o que me resta da alma e dói mais do que o prazer. De onde vinhas? Do nada. Para onde ias? Para o nada. Somos feitos de nada, mas entre nós e deus não há ninguém.
 Pedro Paixão
– Ladrão de Fogo


 


O poder da Natureza é infinito, eu sou natural.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Odeio as almas estreitas, sem bálsamo e sem veneno, feitas sem nada de bondade e sem nada de maldade.Nietzsche
Deixa aqui algum bálsamo