quinta-feira, janeiro 19, 2017

Afundar relações



Quando apareceram os telemóveis fui logo apanhado e tornei-me um viciado. Cheguei a ter três: um para assuntos profissionais, outro para assuntos privados e um terceiro para ligações internacionais – tinha na altura uma suave noiva que vivia em Palermo. Parecia um pistoleiro e aconteceu-me várias vezes falar por dois ao mesmo tempo, ou não saber com quem falava e continuar a falar, ou confundir sem perdão a voz da minha amada. Aguentei alguns anos, sete precisamente. Acordava e já tinha uma dúzia de mensagens que exigiam resposta. Passava o dia literalmente ao telefone e, enfim, precisava de trabalhar. Numa certa manhã de Agosto acordei agastado. Ouvi as mensagens – quatro da Sicília criticando o meu silêncio – e afundei-os um a um, com um prazer sádico, na banheira repleta de água. Assim se dissolveram as suas memórias e todas as mensagens. Desejava saber quem de facto era meu amigo não portátil. Recuperei alguns pelo preço de perder a distante namorada. Os protestos não me abalaram. Um homem sem telemóvel é um ser mais tranquilo desligado da corrente.

Pedro Paixão

Por acaso, também eu, em 2001, enchi um recipiente com água a ferver e afundei, como diz Pedro Paixão, um telemóvel, que era exclusivo para falar com o namorado da altura. 




Sou uma força da natureza, não tentes destruir - me...

6 comentários:

  1. Belo texto!
    Por vezes, precisávamos de voltar o tempo antigo. Refiro-me o antes dos telemóveis e computadores. Para ter uma vida mais calma e saudável! Digo eu, que não vivo sem isso.!

    Beijoos

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Eu em casa tenho o PC ligado mas não me apanham na rua a olhar para a net...

      Eliminar
  2. Afundaste o telemóvel só para não o afugares a ele será?
    beijito

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Para me obrigar a deixar de contactar essa pessoa...

      Eliminar
  3. Isso é que foi definitivo, bolas!! A não ser que soubesses o número de cor :p

    ResponderEliminar

Odeio as almas estreitas, sem bálsamo e sem veneno, feitas sem nada de bondade e sem nada de maldade. Nietzsche
Debita aqui algum bálsamo.